Tiago Lima

Selic, CDI, IPCA, IGP-M, INCC e CUB: o que cada índice muda no seu imóvel (explicado sem economês)

Dicas & Tendências · 29/07/2026 · 10 min de leitura · por Tiago Lima

Neste artigo
1. Por que isso separa quem vende de quem só mostra imóvel2. As duas famílias de índice (a base de tudo)3. Selic e CDI: o preço do dinheiro parado4. IPCA e IGP-M: a inflação que reajusta seu aluguel5. INCC: o índice de quem compra na planta6. CUB: quanto custa erguer 1m² em Santa Catarina7. Os 6 números lado a lado, hoje8. Na prática: o que perguntar antes de assinar9. A diferença que isso faz na carreira do corretor

Selic, CDI, IPCA, IGP-M, INCC, CUB. Seis siglas que aparecem em toda reportagem de economia — e que, no mercado imobiliário, decidem se uma parcela sobe R$50 ou R$500, se um aluguel dobra ou se um investidor assina o contrato hoje mesmo. Ninguém nasce sabendo o que cada uma faz. Aqui vai a explicação mastigada, sem economês, com exemplo de conta pra cada uma — e o motivo pelo qual dominar isso muda a carreira de um corretor.

Por que isso separa quem vende de quem só mostra imóvel

Todo corretor sabe descrever varanda gourmet, vista mar e metragem. Poucos sabem explicar, sem gaguejar, por que a parcela do cliente subiu ou por que o aluguel reajustou daquele jeito. É exatamente nesse ponto que a venda trava ou destrava.

Pensa nas duas cenas abaixo — a mesma pergunta, dois corretores diferentes:

A diferença entre as duas cenas não é conhecimento técnico de economista — é ter decorado 6 números e saber onde cada um se encaixa. É isso que transforma "vendedor de imóvel" em "consultor em quem se confia o maior patrimônio da vida de alguém".

As duas famílias de índice (a base de tudo)

Antes dos nomes, duas ideias resolvem metade da confusão:

O CUB não é bem nenhum dos dois: é uma referência de custo de construção, não um índice que reajusta contrato. Chegamos nele mais abaixo.

Selic e CDI: o preço do dinheiro parado

A Selic é a taxa básica de juros do Brasil, definida pelo Banco Central a cada 45 dias, na reunião do Copom. Hoje está em 14,25% ao ano. O CDI é a taxa que os bancos cobram entre si de um dia pro outro — anda sempre colado na Selic, hoje em 14,15% ao ano.

Por que isso importa pra quem vende imóvel de alto padrão: é a régua mental de todo investidor antes de assinar qualquer contrato. Ele pensa "isso rende mais que deixar no banco, sem risco nenhum?" — e se você não souber responder com números, ele responde essa pergunta sozinho, na maioria das vezes contra você.

Exemplo 1 — o aluguel isolado assusta: um imóvel de R$ 1.800.000 alugado por R$ 9.000/mês rende 6% ao ano em aluguel puro — menos da metade do CDI. Isolado, o número afasta o investidor. Mas o CDI não valoriza patrimônio nem protege da inflação de verdade: é só um número no papel, que o governo pode derrubar na próxima reunião do Copom. O retorno completo do imóvel é aluguel + valorização histórica da região — e aí a conta muda de figura.

Exemplo 2 — o CDB que "parece" melhor: um investidor te mostra um CDB pagando 100% do CDI e pergunta por que trocaria isso por tijolo. A resposta certa não é competir número com número — é mudar o critério: "esse CDB rende 14,15% no papel, mas você não mora nele, não aluga pra ninguém, não deixa como herança com história, e se o governo cortar juros pela metade nos próximos 2 anos — o que já aconteceu antes no Brasil — esse rendimento cai junto. O imóvel fica."

IPCA e IGP-M: a inflação que reajusta seu aluguel

Os dois medem inflação, mas em cestas diferentes. O IPCA (calculado pelo IBGE, o instituto do governo) mede o consumo da família comum: arroz, ônibus, remédio, aluguel. Está em 4,64% acumulado em 12 meses. Já o IGP-M (calculado pela FGV, uma fundação privada) pesa muito dólar e commodities — por isso é mais instável. Está em 3,16% em 12 meses hoje.

A história que todo corretor deveria contar pro cliente: em 2021, o IGP-M passou de 23% em 12 meses. Muito contrato de aluguel "explodiu" da noite pro dia, e virou motivo de briga judicial entre inquilino e proprietário. Foi esse susto que fez o mercado migrar boa parte dos contratos novos pro IPCA — mais estável, porque reflete o consumo do dia a dia, não o câmbio.

Exemplo 1 — o reajuste anual: um aluguel de R$ 8.000/mês reajustado por IPCA (4,64%) sobe pra R$ 8.371 depois de um ano. Reajustado por IGP-M (3,16%) hoje, subiria só pra R$ 8.253 — mas em 2021 esse mesmo contrato, se estivesse em IGP-M, teria ido pra quase R$ 9.840. É por isso que o índice escolhido no contrato não é detalhe de rodapé.

Exemplo 2 — o proprietário que quer trocar de índice com medo: um proprietário liga assustado, lembrando do susto de 2021, e quer trocar o contrato de IGP-M pra IPCA imediatamente. Aqui o corretor que domina o assunto tem duas informações valiosas pra dar: primeiro, que hoje o IGP-M (3,16%) está mais baixo que o IPCA (4,64%) — ou seja, trocar agora, no medo, faria ele ganhar menos reajuste esse ano especificamente. Segundo, que a troca não é automática: precisa de um aditivo contratual assinado pelas duas partes, não é só "querer e pronto". Vale explicar o risco de volatilidade futura do IGP-M, mas com o dado real na mesa, não com pânico.

INCC: o índice de quem compra na planta

O INCC (também da FGV) mede só a inflação da construção civil: cimento, ferro, mão de obra de pedreiro. Está em 6,78% acumulado em 12 meses. É esse índice que corrige as parcelas de quem compra um imóvel na planta, do lançamento até a entrega das chaves. Depois disso, o contrato normalmente passa a ser corrigido por IPCA ou IGP-M + os juros do financiamento.

Exemplo 1 — a conta simples: uma parcela de R$ 50.000 numa obra de 24 meses, corrigida a 6,78% ao ano (cerca de 0,55% ao mês), termina a obra valendo aproximadamente R$ 57.400 — quase R$ 7.400 a mais, mesmo sem o comprador atrasar um único dia.

Exemplo 2 — mostrando a evolução mês a mês (útil pra deixar no material de venda, sem surpresa depois):

Momento da obraParcela corrigida (aprox.)
Assinatura (mês 0)R$ 50.000
6 meses de obraR$ 51.700
12 meses de obraR$ 53.480
18 meses de obraR$ 55.320
24 meses (entrega)R$ 57.400

Mostrar essa tabela pro cliente antes de assinar é o que separa uma venda tranquila de uma reclamação seis meses depois. O cliente que já viu a curva de reajuste não liga de volta assustado — ele já sabia.

CUB: quanto custa erguer 1m² em Santa Catarina

O CUB (Custo Unitário Básico) é calculado todo mês pelo Sinduscon e mostra quanto custa construir 1m² num padrão médio, região por região. Em Santa Catarina, hoje está em R$ 3.121,62/m². Ele não corrige contrato nenhum — é uma referência de custo, útil pra uma conta específica: a margem do incorporador.

Exemplo 1 — a margem de um lançamento: um lançamento sendo vendido a R$ 8.000/m² tem, ali, cerca de R$ 4.878/m² de margem bruta antes de terreno, projeto, marketing, impostos e lucro do incorporador. Não significa que o preço está "errado" — terreno de frente-mar em Balneário Camboriú custa caro —, mas dá ao investidor um argumento concreto pra entender de onde vem o preço, em vez de aceitar o número de cabeça baixa.

Exemplo 2 — comparando dois empreendimentos: um cliente está em dúvida entre dois lançamentos parecidos, um a R$ 7.200/m² e outro a R$ 9.500/m². Usar o CUB como referência ajuda a explicar que a diferença não é sempre "um é mais caro à toa" — pode estar em padrão de acabamento, localização do terreno, ou marca do incorporador. O CUB dá o piso da conversa; o resto é argumento de venda de verdade.

Os 6 números lado a lado, hoje

Índices e taxas · julho de 2026 (% ao ano ou acum. 12 meses) Selic 14,25% CDI 14,15% INCC 6,78% IPCA 4,64% IGP-M 3,16% CUB/SC (referência de custo, não é taxa): R$ 3.121,62/m² · julho de 2026 Fontes: Banco Central, IBGE, FGV, Sinduscon-SC — ver fontes completas ao final do artigo.
ÍndiceValor hojeOnde usar
Selic14,25% a.a.Régua de comparação com investimento sem risco
CDI14,15% a.a.Rendimento de CDB e fundos de renda fixa
IPCA4,64% em 12mReajuste de aluguel (maioria dos contratos novos)
IGP-M3,16% em 12mReajuste de aluguel em contratos antigos + saldo devedor pós-chaves
INCC6,78% em 12mCorreção de parcelas de imóvel na planta
CUB/SCR$ 3.121,62/m²Referência de custo de construção, não reajusta contrato

Na prática: o que perguntar antes de assinar

A diferença que isso faz na carreira do corretor

Nenhum desses seis números é fixo — eles mudam todo mês. Mas quem entende a lógica por trás de cada um não precisa decorar a tabela: precisa saber onde procurar e explicar com naturalidade. É essa naturalidade que o cliente sente, e é ela que constrói confiança.

Na prática, dominar esses índices muda três coisas concretas no dia a dia de quem vende imóvel de alto padrão:

O corretor que sabe explicar esses números com firmeza não está "por dentro de economia" — está simplesmente fazendo o trabalho completo: vender o imóvel e a confiança em quem está vendendo.

Leia também:

📌 Dados de julho de 2026. Fontes: Banco Central do Brasil e Meelion (Selic), Investidor10 (IPCA), Brasil Indicadores (IGP-M), FGV e Melhor Câmbio (INCC), Sinduscon-SC via MySide (CUB/SC). A tabela de evolução da parcela do INCC é uma simulação ilustrativa a taxa constante — a variação real do índice muda mês a mês. Índices variam todo mês — confirme o valor atualizado antes de qualquer decisão. Valorização passada não garante resultado futuro. Tiago Lima · CRECI-SC 34933.
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Tiago Lima
Corretor de imóveis · CRECI-SC · 10 anos de litoral catarinense · ver imóveis

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